• Renato Martins

A série "Pontos de Funk" conta a história das produções do funk carioca

Atualizado: 4 de Nov de 2020

Idealizada pela equipe Apavoramento, a série conta com oito episódios disponíveis no Youtube com os produtores que definiram o ritmo do Rio.


O funk carioca completou 31 anos em 2020. Um dos marcos para esse aniversário é o lançamento do álbum Funk Brasil, do DJ Marlboro, lançado em 1989. Mas o movimento em si já vem de antes, com os Bailes Blacks desde os anos 70. Durante todos esses anos de funk, diversos elementos definiram o que é o funk, um deles é a música. A série "Pontos de Funk", da equipe Apavoramento, retratou com personagens reais (e lendários) todas as características do funk carioca e como se construiu o funk que conhecemos hoje.

"Usando Samples para contar uma história sobre Samples", com essa ideia surge a série "Pontos de Funk". Ponto é uma forma carioca de citar o famoso sample (trecho de uma música), que definiu a música hip-hop, que por sua vez, influenciou a criação do funk carioca tanto nas músicas quanto na forma de produzir os sons.


"Fazer música é algo caro, só que o funk fez isso ficar algo simples", completa o produtor Batutinha. "[essa forma de produzir] virou a base da revolução do funk do Rio, quando o funk ficou do povo. Quando [o funk] não tinha como entrar em estúdio pra poder gravar".


Foi entrando em estúdios que surgiu a ideia da série. Entre diversas visitas aos amigos produtores o diretor João Woo foi acumulando música e imagens. "Sempre pedia uns samples pra eles e tentava trocar pelas minhas pastas de Ghettotech e Juke (150BPM originado em Detroit e Chicago) que eles não conheciam".


"Nessa atividade veio a ideia de entrevistar esses criadores, esses garimpeiros musicais do funk, tentar achar origens desse tesouro musical eletrônico e nomenclaturas dadas aos beats e samples

O FUNK SAMPLEANDO O MUNDO


Samplear é a arte de reproduzir em sequência trechos de sons previamente gravados. Se você ir tocando um trecho em seguida do outro você consegue criar uma música. São vários trechos que vão definir a estrutura de uma música: a batida, a voz, a linha baixo e por aí vai. O que os funkeiros fizeram foi usar a batida da música com um vinil e samplear por cima o trecho de outras músicas com os equipamentos da época.


"Ele [o DJ] não pegava um instrumento, tocava alguma coisa e colocava ali. [O DJ] pegava um sample de um disco que era sucesso e fazia as montagens", explica em um dos episódios o DJ e produtor Sany Pitbull. "E assim virou a cultura do funk".

Foram desses discos que surgiram os maiores sucessos do funk carioca. Diversos artistas consagrados participaram do funk, alguns deles sem nem saber. Já caíram no funk: Luiz Gonzga, Ice T, Hassan, Mamonas Assassinas, Afrika Bambaatta, Guns n' Roses, Rolling Stones, Dire Straits, pra citar alguns.


Essas montagens criaram canções únicas, algumas vezes o pontinho da montagem ficava mais famoso que a original. No sucesso internacional "They're Playing Our Song" da cantora Trinere, os produtores cariocas usaram a base para criar uma montagem de funk, a ponto do público pedir a montagem ao invés da original.


Outra montagem famosa é do ponto Samuel, que vem do sucesso internacional "Open your eyes" do artista Samuel. Você já deve ter ouvido em alguma festa esse pontinho. O que muito funkeiro se pergunta é "O Samuel sabe que usamos esse trecho?".



Os Relíquias Cariocas


Um dos diferenciais da série é ser feita por cariocas que viveram o movimento desde o começo e também contar com personagens lendários do funk como: DJ Sany Pitbull, DJ Grandmaster Raphael, Phabyo DJ, Byano DJ, Fabinho Neurosampler, Washington DJ, Ricardinho DJ e Batutinha. Além disso, o diretor da série João Woo adiantou que tem mais gente importante vindo ai.


"Fizemos a última entrevista concedida pelo Marcão dono da lendárias Equipe Cashbox, eu e a Leila Tupinambá produtora do Rio Parada Funk. [Ele nos recebeu] em sua casa com café, bolo e uma incrível sabedoria de décadas de discotecagem". Pra quem é mais novo não deve conhecer esses personagens, mas o falecido Mr.Catra todo mundo conhece. "E tive a oportunidade de registrar o último show do Catra no Circo Voador, com seu DJ muito habilidoso na MPC. Essas imagens ainda estão inéditas".


Ao todo já estão disponíveis no YouTube oito episódios sobre os mais variados temas. E ainda tem mais. "Tem muito material ainda de entrevista e tô numa fase de sair pra gravar mais entrevistas e pautas. Essa primeira fase foi mais em cima dos bailes dos anos 80 e 90". Mas 'e o 150BPM atual?' perguntei ao diretor. "Vamos chegar lá, vai acelerar rs".


"Essa cultura tem uma criatividade incontrolável ao passo que é efêmera na sua relação com o sucesso e com a estabilidade artística de MCs e DJ. São muitos artistas talentosos criando esse movimento que lança um estilo novo a todo momento. Cada mês vem um hit novo. Isso é fantástico! O audiovisual e a linguagem do documentário podem ser usados na tentativa de achar uma narrativa lógica no fluxo da criatividade funkeira. Estamos apenas disponibilizando nossas habilidades e equipamentos a favor de uma música que treme nosso coração".


São raros os registros do funk carioca por quem viveu esse momento, mais raro ainda é ter um registro audiovisual em grandes plataformas de streaming. A equipe da série "Pontos de Funk" está atrás de investimento "Mas enquanto nenhuma plataforma descobre o valor 'de mercado' dessas narrativas, estamos criando dia a dia um público para a série, para os amantes do funk na internet de forma independente!". E no formato guerrilha, o diretor encerra com um convite: "Qualquer ideia de pauta é bem vinda lá nos comentários! Vamos fazer!"


São essas histórias que a série retrata, um registro essencial para conhecer a cultura do funk carioca. Entre os depoimentos contadas ao longo desses episódios, os produtores apontam que tudo isso começou com as equipes de som, outra parte essencial para entender o funk. Essa, ainda não tem uma série, só uma reunião anual no Rio Parada Funk.


Assista a série "Pontos de Funk"no Youtube.

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